quarta-feira, abril 28, 2004
Que que eu faço primeiro hein?!
Ah, sábado passado saiu a crítica n'O Globo da peça.
Foi boa.
O Jefferson foi bastante generoso.
Olha aí:
- - -
por Jefferson Lessa
INDECÊNCIA CLAMOROSA: MONTAGEM CARIOCA TEM SEU PONTO ALTO NO TRABALHO DOS ATORES QUE VIVEM OS PAPÉIS PRINCIPAIS
24/04/2004
O julgamento do dândi em versão discreta
Não vá esperando uma peça de tribunal, mas uma peça de julgamento. Pois “Indecência clamorosa” não se aproveita do tema para criar suspenses já vistos e revistos em tantos filmes e peças. Ou seja, não espere advogados apresentando testemunhas de última hora ou juízes gritando “Ordem no tribunal!”. “Indecência clamorosa” tenta mostrar o julgamento de um homem que não se dobrava à sua época e a seus pares. E que pagou muito caro por seu brilho e por sua ousadia. O homem em questão é Oscar Wilde.
Condenado a trabalhos forçados, depois de passar de acusador (do Marquês de Queensberry, pai de seu amante, por calúnia) a acusado (pelo Marquês de Queensberry), o escritor genial morreu prematuramente, poucos anos depois de cumprir sua pena. A sociedade vitoriana havia cumprido seu dever.
Má pronúncia de nomes ingleses causa ruídos de comunicação
Moises Kaufman costura muito bem a transcrição dos julgamentos (foram três), trechos de cartas de Wilde para Alfred Douglas (o nobre jovem e mimado amante do escritor) e vice-versa e passagens do “De profundis”, a obra escrita na prisão. Já a montagem em questão apresenta alguns altos e baixos. Entre os baixos, a nítida condição de “pouco à vontade” que o elenco demonstra ter com o texto. Algo que me incomodou bastante foi a pronúncia “Uáide” quando o nome é Wilde. Outra: alguns dos rapazes dizem “Búzi” quando se referem a Bosie (“Bôuzi”), apelido do Lord Alfred Douglas. Frescura? Acho que não. Pronúncias muito destoantes podem trazer ruídos imperdoáveis na comunicação.
Dito isso, encerramos os baixos, amplamente superados pelos altos. A começar pelo próprio elenco. Há quem ache Pedro Osório afetado como Oscar Wilde. Concordo, mas acho isso um elogio. O trabalho de composição do ator é minucioso. E Oscar Wilde era afetado, ou não seria chamado de dândi. Ricardo Marecos convence como um Marquês de Queensberry truculento e cheio de ódio, disposto a destruir o autor de “O retrato de Dorian Gray”. Mas é Augusto Zacchi quem realmente impressiona e se destaca. Seu Alfred Douglas demonstra o desprezo pelo resto do mundo típico dos nobres ingleses, mas não deixa de demonstrar verdadeiro afeto por Wilde. O jeito de falar, as expressões faciais, o caminhar, os olhares — tudo é impecável no ator, tudo demonstra a multiplicidade dos seres humanos (ainda que um Alfred Douglas da vida).
A discrição em vários sentidos é outro ponto alto. O cenário, composto de cadeiras de ferro, é discreto e eficiente, servindo, pelo deslocamento das próprias, de tribunal, prisão etc. A tradução de Barbara Heliodora é discreta no sentido de não deixar furos, não criar os tais ruídos na comunicação que arrasam qualquer espetáculo. Os figurinos de época de Alessandra Colassanti mantêm um padrão de cores discreto e elegante, enquanto a luz de Julio César Valle e a música de Marcos Buarque se prestam a seus papéis sem brilhar mais que o drama humano que se desenrola no palco.
- - -
Vá assistir.
Depois me conta você.
* * *
Escutando: Seu Jorge - Cotidiano
Ah, sábado passado saiu a crítica n'O Globo da peça.
Foi boa.
O Jefferson foi bastante generoso.
Olha aí:
- - -
por Jefferson Lessa
INDECÊNCIA CLAMOROSA: MONTAGEM CARIOCA TEM SEU PONTO ALTO NO TRABALHO DOS ATORES QUE VIVEM OS PAPÉIS PRINCIPAIS
24/04/2004
O julgamento do dândi em versão discreta
Não vá esperando uma peça de tribunal, mas uma peça de julgamento. Pois “Indecência clamorosa” não se aproveita do tema para criar suspenses já vistos e revistos em tantos filmes e peças. Ou seja, não espere advogados apresentando testemunhas de última hora ou juízes gritando “Ordem no tribunal!”. “Indecência clamorosa” tenta mostrar o julgamento de um homem que não se dobrava à sua época e a seus pares. E que pagou muito caro por seu brilho e por sua ousadia. O homem em questão é Oscar Wilde.
Condenado a trabalhos forçados, depois de passar de acusador (do Marquês de Queensberry, pai de seu amante, por calúnia) a acusado (pelo Marquês de Queensberry), o escritor genial morreu prematuramente, poucos anos depois de cumprir sua pena. A sociedade vitoriana havia cumprido seu dever.
Má pronúncia de nomes ingleses causa ruídos de comunicação
Moises Kaufman costura muito bem a transcrição dos julgamentos (foram três), trechos de cartas de Wilde para Alfred Douglas (o nobre jovem e mimado amante do escritor) e vice-versa e passagens do “De profundis”, a obra escrita na prisão. Já a montagem em questão apresenta alguns altos e baixos. Entre os baixos, a nítida condição de “pouco à vontade” que o elenco demonstra ter com o texto. Algo que me incomodou bastante foi a pronúncia “Uáide” quando o nome é Wilde. Outra: alguns dos rapazes dizem “Búzi” quando se referem a Bosie (“Bôuzi”), apelido do Lord Alfred Douglas. Frescura? Acho que não. Pronúncias muito destoantes podem trazer ruídos imperdoáveis na comunicação.
Dito isso, encerramos os baixos, amplamente superados pelos altos. A começar pelo próprio elenco. Há quem ache Pedro Osório afetado como Oscar Wilde. Concordo, mas acho isso um elogio. O trabalho de composição do ator é minucioso. E Oscar Wilde era afetado, ou não seria chamado de dândi. Ricardo Marecos convence como um Marquês de Queensberry truculento e cheio de ódio, disposto a destruir o autor de “O retrato de Dorian Gray”. Mas é Augusto Zacchi quem realmente impressiona e se destaca. Seu Alfred Douglas demonstra o desprezo pelo resto do mundo típico dos nobres ingleses, mas não deixa de demonstrar verdadeiro afeto por Wilde. O jeito de falar, as expressões faciais, o caminhar, os olhares — tudo é impecável no ator, tudo demonstra a multiplicidade dos seres humanos (ainda que um Alfred Douglas da vida).
A discrição em vários sentidos é outro ponto alto. O cenário, composto de cadeiras de ferro, é discreto e eficiente, servindo, pelo deslocamento das próprias, de tribunal, prisão etc. A tradução de Barbara Heliodora é discreta no sentido de não deixar furos, não criar os tais ruídos na comunicação que arrasam qualquer espetáculo. Os figurinos de época de Alessandra Colassanti mantêm um padrão de cores discreto e elegante, enquanto a luz de Julio César Valle e a música de Marcos Buarque se prestam a seus papéis sem brilhar mais que o drama humano que se desenrola no palco.
- - -
Vá assistir.
Depois me conta você.
* * *
Escutando: Seu Jorge - Cotidiano
Comments:
Postar um comentário